quinta-feira, março 23, 2017

Quem disse que ser saudável é fácil?

Entro na academia, meio sem jeito. Olho aqueles aparelhos todos que, no meu tempo, não pareciam tão grandes e intimidadores assim, mas sigo confiante. Havia marcado um horário com a instrutora para que definíssemos uma estratégia. Aí, ela me pergunta "Qual o seu objetivo?". Começamos bem. 

Qual o objetivo de alguém que procura uma academia? Tudo bem, não sejamos arrogantes. Pode ser para perder peso, tonificar os músculos, atividade cardio vascular ou até para encontrar uma companhia. Meu objetivo é o mais comum: perder peso e tonificar os músculos.

A instrutora, uma delicada e pálida menina de vinte e poucos anos, sorri para mim e me apresenta a esteira. Ah, esta eu conheço de longa data. Eu tinha uma em casa e, quando me mudei de Minas para São Paulo, enfiei a dita cuja dentro o carro e lá se foi ela comigo, a minha companheira de desafios. Quando me sentia frustrada, lá ia eu correr, suar e colocar os demônios pra fora, mas ela era diferente da que a menina me mostra. Esta tem televisão e tantos botões que me perco na explicação. "Uau!", penso eu... "mas não é só pra subir e correr?". Depois, me disseram que esteiras tem televisão há muitos anos. Só mais uma constatação do quanto fiquei longe do mundo! 

Da esteira, passamos para bicicleta, para o remo e uma coisa tão estranha que não me lembro nem do nome. Parece que você está esquiando para cima em uma montanha móvel. Tentei uma vez, duas, três (sim, porque pisciana é teimosa mesmo) e concluí... não gostei. Aí a mocinha, com toda a paciência, diz. "Você pode diminuir a resistência para 1 se você preferir" (estava no 2). E eu respondo "Não tem nível zero, não?" E ela ri muito. Bom, eu também, fazer o que, né.

Definimos a rotina e começo a frequentar a academia novamente. Como era de se esperar, os primeiros dias eu pareço aquele cachorro que não quer tomar banho, sendo arrastado pela coleira, e ele se larga todo no chão fazendo cara de piedade. Então... a diferença é que não uso coleira e quem me arrasta é a melhor versão de mim mesma. Até cantar a música do Rocky eu cantava na minha cabeça!

Depois de duas semanas, já estou familiarizada com tudo e uso os aparelhos como uma profissional! 

Um belo dia, um jovem bonito e sorridente se aproxima e começa a falar comigo. Eu não escuto porque estou no meio da minha corrida, com fones de ouvido e uma música eletrizante bombeando o meu sangue. Eu tento tirar os fones ao mesmo tempo que tento parar de correr e, no meu total desajeito, quase caio da esteira, mas com elegância eu contorno o vexame. Ele me pergunta se eu preciso de alguma ajuda. A cliente dele havia cancelado o horário e ele estaria livre para dar dicas ou ajudar no que fosse preciso. Hã... tento pensar em algo rápido porque, na verdade, eu queria ajuda sim, em como perder peso e ganhar músculo fácil e rápido! Mas, como todos sabemos, isso não existe, então, passamos a conversar sobre o que eu tenho feito para atingir o meu objetivo e ele me leva para um outro lado da academia que, para mim, era só para os "sarados". 

Aparelhos grande e pesos ainda maiores olhavam pra mim com ar de desafio. "E aí, cinquentona, vai encarar?"... Ah... quem me conhece sabe que eu a-do-ro um desafio. 

James me apresenta alguns exercícios e aparelhos mais intensos para os glúteos, pernas, bíceps, tríceps e todos os músculos estranhos que vão do pescoço ao tornozelo. Ele me mostra como fazer e eu repito e vejo como o corpo da gente tem uma memória incrível. Mesmo não tendo o mesmo condicionamento de antes, meu corpo reage rápido e a postura alinhada da coluna, pernas e braços estão ali, prontos para a briga. James fica impressionado. "Yes!", penso eu. Acho que isso vai dar certo. 

Digo a ele que não posso me esforçar demais porque de noite vou para a minha primeira aula de Kung Fu e ele fica impressionado. Conto que já fiz artes marciais antes, mas tinha sido há muito tempo (não disse que foi há mais de trinta anos!), e que sempre tive vontade de voltar a praticar. 

Terminada a sessão com James, sinto-me ótima, até o primeiro degrau da escada... minhas pernas pareciam gelatinas nervosas e tenho que segurar no corrimão para chegar ao final dos degraus. Quando saio da academia, está chuviscando e ainda tenho vinte minutos de caminhada até em casa, o que foi bom, porque os músculos vão se acomodando devagar e chego em casa inteirona.

De noite, lá vou eu para a aula de Kung Fu. Não é o que eu esperava. E não tem nada a ver com os anos passados, mas com técnica e estilo. Acho feio e sem fundamento. Não há uma preparação básica para as rotinas/coreografia, não há filosofia, só pancadaria, mas já que eu estou lá, o jeito é encarar. 

Todos são muito atenciosos comigo, inclusive o instrutor que me deixa à vontade para fazer o treino no meu ritmo. "Ah, fica frio, eu dou conta", penso eu. Ãhã... meia hora depois de correr de um lado para o outro do salão, toca a parede de cada lado, agacha, faz flexão, levanta, corre para o outro lado, toca a parede, senta, faz abdominal, corre de novo, toca a parede, faz polichinelo, corre de novo.... e... aaahhhh, pára! Não dou conta! Meu coração está saltando pela boca e minha garganta tão seca que eu mal consigo respirar. Por sorte, a sessão tortura acaba e vamos para a parte de ataque e defesa em dupla. Ah, isso eu gosto. 

A minha parceira é uma menina de doze anos. É... pequenininha e ágil, mas com dois anos de treino, já. Durante quinze minutos eu chuto, soco, defendo-me dos chutes e socos dela até que minhas pobres pernas e braços não aguentam mais e eu me rendo ao meu péssimo condicionamento físico. Vou me sentar e apenas assisto ao resto da aula. "Até semana que vem!" dizem os colegas e instrutor ao se despedirem de mim e eu penso "é, acho que sim".

Na volta para casa, cada músculo do meu corpo grita de dor. Ombros, braços, peito, barriga, pernas... olha, dói até pra piscar! Quando me deito na cama, procuro uma posição confortável porque eu ficaria daquele jeito até o dia seguinte!

Quando abro os olhos de manhã e tento esticar as pernas, já era... eu ficaria na cama o dia inteiro se pudesse! Até o meu gato fica com pena de mim. Levanto da cama gemendo, arrasto-me para o banheiro e.... as escadas. Oh ceús, por que fui querer morar em casa de dois andares, por que???? Com uma mão no corrimão e a outra na parede oposta (sim, as escadas aqui são estreitas assim) eu desço degrau por degrau e caminho feito um robô até a cozinha. Sorte a minha que férias existem e vou ficar em casa o dia todo! Mas, quer saber? Não tem coisa melhor do que sentir o corpo vivo, de novo. Os músculos sendo reanimados após anos de um coma profundo. Sentir o coração forte e a mente aberta.

Quando nascemos, nos é dado algo precioso e que é a única coisa que não volta: o tempo. Cada um tem um tempo útil e cada um de nós o usa como quer, mas só quando realmente nos damos conta de que cada segundo passado nunca mais vai voltar é que nos deparamos com a pergunta: o que eu tenho feito com o meu tempo? 

Por mais dolorido que seja mudar de vida (e meus músculos que o digam!), você só muda para melhor quando usa o seu tempo para fazer o bem a si e ao próximo. Eu ainda quero viver muito e saudavelmente, por mim e pelos meus filhos (embora eu ainda não consiga me levantar do sofá sem gemer).

E você, como você tem usado o seu tempo?

segunda-feira, março 20, 2017

Quem você quer ser: vítima ou herói?

Tratar um mal físico é, na maioria das vezes, fácil. Vai-se ao médico, obtém-se o diagnóstico, faz o tratamento e pronto. Outros problemas são mais profundos e atingem a alma, o espírito, a nossa energia motora. Um destes males é a mágoa. Ela é como aquela telinha azul de erro do Windows que nós detestamos, mas que serve de alerta. Você pode simplesmente dar o reboot, mas é aconselhável entender o motivo.

Enquanto a raiva é intensa e explosiva, a mágoa é silenciosa e por isso causa um dano muito maior. Ela é traiçoeira porque age quieta, cresce no inconsciente por muito tempo (se não para sempre), manifestando-se ocasionalmente e despertando novamente uma tristeza que pensávamos termos superado. Às vezes, basta apenas a lembrança do fato ocorrido no passado para sentirmos aquele aperto no coração e, para proteger-nos da dor, afastamos os pensamentos, distraímo-nos com outras coisas e ela logo passa. Mas não se engane. Enquanto a lembrança lhe causar dor, é sinal de que a mágoa ainda vive dentro de você.

A mágoa é um veneno que corrói o nosso interior e que pode causar doenças como depressão, estresse, ansiedade e até tumores. Você pode até culpar o outro pela dor causada, mas é você quem decide o quanto vai querer guardar este sentimento e, o mais importante, se quer mesmo guardar este rancor. A mágoa é como aquela vela de aniversário que mesmo apagada, reascende, de novo e de novo. Ela é a base da vitimização, da baixa autoestima e da sensação de impotência diante dos próprios sentimentos. A mágoa é a dolorosa lembrança do próprio fracasso na superação das adversidades. Ela é a telinha azul que fazemos de tudo para driblar e, como tal, tem solução.

Seja o que for que cause mágoa, pode e deve ser superado se quisermos retomar o controle das nossas vidas e sentimentos. Enquanto há mágoa, é sinal de que seja lá o que tenha ocorrido no passado, ainda está no controle. É preciso voltar naquele capítulo da sua história, relê-lo com outros olhos, colocando o causador da sua dor como coadjuvante na sua obra onde o herói é você e só o será se conseguir reescrever linha por linha dos seus sentimentos.

Uma pessoa pode ferir você, mas deixar que a ferida continue doendo está em suas mãos. Enquanto as atitudes de outra pessoa influenciar nos seus sentimentos é como narrar a sua vida dizendo ele fez isso, ela fez aquilo, não é a sua história, mas a do outro. Qual é a SUA história? O que VOCÊ fez para se libertar? Quem você se tornou?

Sempre que olhar para trás, não pense mais naquele que lhe feriu, mas em como você está hoje, o que VOCÊ tem feito para se tornar uma pessoa melhor. E orgulhe-se da SUA história, das SUAS atitudes ao invés de sentir tristeza pelo que fizeram com você. Enquanto você for a vítima, o protagonista será sempre o agressor. Você não é a vítima, mas o autor da sua própria história.

Adversidades e injustiças acontecem causando uma dor profunda, mudando você para sempre, mas a pessoa que você vai se tornar só depende de você.

Para refletir, assista ao vídeo de Elizabeth Smart (abaixo), sequestrada aos 14 anos e abusada sexualmente por nove meses. Ouça o que ela fala sobre o que ela sente pelo agressor.



https://www.youtube.com/watch?v=h0C2LPXaEW4 


segunda-feira, março 13, 2017

A hora de parar de sentir raiva

Neste imenso universo onde habitam os sentimentos, a raiva é sem dúvida o grande buraco negro. Na contramão do amor, da amizade e solidariedade, a raiva se alimenta da nossa sanidade. E a grande armadilha é que, ao darmos vazão à ela, um processo viciante se inicia, e é quase impossível interrompê-lo.

Não somos mais os donos da nossa razão, somos envenenados pela dor. Quanto mais nos sentimos feridos, mais queremos ferir. E quanto mais ferimos, mais sentimos a própria dor. Todos nós já estivemos lá, em pequena ou grande escala. Eu estive, várias vezes, por motivos diversos.

Quando a raiva é acionada, não temos a visão clara dos fatos e nos apegamos a qualquer coisa que justifique e, principalmente, perpetue aquela sensação latejante e compulsiva de se fazer o mal. Uma vez iniciado o processo, a única coisa que nos dá prazer é a dor alheia. Por isso os crimes passionais são tão violentos.

Quando a violência física não é uma opção, palavras são escolhidas a dedo com o intuito de fomentar a dor. Mas elas se esvaziam rapidamente e vasculhamos os nossos baús empoeirados e decadentes com o intuito de resgatar as mais rancorosas lembranças porque precisamos de munição, precisamos dela para despejarmos, mais uma vez, o veneno da discórdia, da insatisfação, do orgulho ferido. Queremos que a chama permaneça acesa e precisamos que ela cresça. Desejamos atear fogo à alma do outro, porque a nossa já está ardendo.

Este ciclo vicioso vai nos consumindo aos poucos e sempre em maior escala. Até que um dia nem a mente e nem o corpo suportam mais a carga de tanta dor, raiva, frustração e desapontamento.

Paramos, ofegante, e procuramos no interior da nossa alma o que é que tenha sobrado do que fomos um dia. O vazio é assustador e a tentação de voltar àquele ciclo doentio é muito grande.

Mas tem que haver um basta. Tem que haver aquele momento de lucidez de se dizer.... Chega.

A raiva nem sempre necessita de uma ação. Ela pode ser a motivação para algo necessário, mas agir sob o comando dela é normalmente mais nocivo a si mesmo do que ao outro.


Quando sentir aquela raiva antiga e já curtida por tantas noites mal dormidas emergindo em seu coração, mude a perspectiva. Faça algo de bom a si mesmo! Abra um sorriso, presentei-se com um pequeno mimo, cante uma música que você gosta, coloque maquiagem, faça planos de férias, ligue para aquela pessoa com quem você não fala há tempos, pule na rua como uma criança, cumprimente um estranho na rua e permita-se ser feliz pra variar.


Reconheça que aquela raiva toda já tomou demais do seu tempo. Aos poucos ela vai desaparecer e vai dar lugar a algo muito melhor. A indiferença.

A hora de parar de sentir raiva é a hora de começar a se amar. E esta hora é sempre agora.



quarta-feira, março 08, 2017

Ao meu novo amor

Querido pretendente, 

O fato de eu estar solteira não quer dizer que eu esteja procurando companhia. Neste momento, basto-me. Estou águia, arrancando as velhas penas com o bico. Sangra, dói e leva tempo. E o faço mesmo assim, ciente de que estão frágeis, manchadas e defeituosas. Preciso abrir espaço para outras mais fortes e vistosas.

Alçarei voos difíceis de acompanhar. Terei sabedoria para enxergar longe e através de você. Será difícil me enganar e quase impossível superar minhas expectativas.

Portanto, meu novo amor, por favor retire o número e esteja preparado para esperar. Sei me levantar sozinha, curar minhas feridas com tempo e determinação, sem necessidade de assistência.

Se depois disso, ao me ver inteira, renovada, forte e ainda por cima confiante e feliz, você ainda achar que poderá voar ao meu lado, estarei feliz em compartilhar o meu melhor com você.  


Mas, até lá, fuja... ou se aperfeiçoe.