domingo, agosto 24, 2014

Por que não sou como as árvores?

Na minha idade, não cabe mais perguntar qual o meu lugar no mundo. Eu já deveria ser uma árvore com frutos maduros e raiz firme, parada, pronta a alimentar ou servir de porto seguro. Mas que nada. Não sou assim e continuo me perguntado o que há de errado comigo.

Às vezes me sinto como aquela peça estranha no quebra-cabeça que se encaixa em vários lugares, mas nunca é o certo e vai parar à margem daqueles montinhos onde as peças são agrupadas por cor, desenho ou formatos. Mas não tenho um montinho próprio. Sou apenas uma estranha à espera da última peça faltando. A cor sem cor chamada Flicts, do Ziraldo.

Mas não é isso o que eu quero ser. Não é isso o que sinto. E sei que não estou só. Somos parte de um sistema padronizado do qual nenhum rótulo se encaixa. Somos uma nova raça, talvez. Ainda não codificada, cujo único momento em que me sentimos inteiras é quando nos calamos no nosso mais absoluto silêncio e ficamos em contato com aquela centelha, uma minúscula parte de nós mesmos, que nos entende. Naquele ínfimo momento, somos tudo, somos livres, somos sós e felizes.

E, finalmente, encontramos a nossa classificação: outros.

Não me sinto melhor com isso. Não quero uma classificação, afinal. Sou um coringa, um camaleão, o X da equação. Sou aquela última peça, sim, que vai preencher o vazio na tela quando o quebra-cabeça terminar. E, por não me encaixar, me encontro. Comigo mesma. De novo e somente. E não há nada de errado comigo. Só não sou palmeira, coqueiro, carvalho ou pinheiro. Não tenho raízes presas ao solo. Talvez só não tenha nascido para ser uma árvore.

Sou pássaro, água, vento, fogo; algo que vem, cumpre a sua missão, passa e vai embora. Segue caminho, vai adiante, mesmo que, às vezes, a saudade de casa doa. E, nestes dias, penso “por que não sou como as árvores?”.


E me dou conta de que as árvores nunca poderão conhecer nada além das suas próprias terras. Já os pássaros sempre podem ir e voltar.

domingo, julho 20, 2014

A justificativa do erro


Eu não acredito no mal ou no bem absoluto. Pessoas boas podem cometer atos terríveis, assim como pessoas cruéis podem amar e serem amados. Por isso, não aceito frases como "fulano sempre foi tão bom, não acredito que ele tenha feito isso". Acreditem, ele pode ter feito. 

Você mandaria matar o estuprador da sua filha? Isso faria de você um mandante de assassinato. Você sonegaria impostos? Isso faria de você um criminoso financeiro. Você daria abrigo a um amigo que atropelou alguém e fugiu? Isso faria de você um cúmplice. 

O fato de homicidas, corruptos, estupradores, batedores de carteira ou assassinos de animais terem pessoas que os protejam e que os defendam, diz apenas que eles têm amigos e pessoas que os amam, mas não fazem deles inocentes de seus atos.

Hitlher amava sua cadela Blondi, e ela a ele. Foi admirado e seguido por milhares de pessoas e odiado por milhões. Osama Bin Laden também tinha família e pessoas que o amavam. Sadam Hussein, idem. Tiranos conhecidos da históri foram adorados e seguidos fielmente.

Nem precisamos ir muito longe. PT, Lula, Dilma, José Dirceu e todo o grupo que constantemente saqueiam o nosso país ainda são adorados e defendidos por muitos. Por conveniência, por amizade ou por convicção política. Mas estes testemunhos, de novo, falam apenas sobre o que eles são para estas pessoas, não sobre os crimes que cometeram.

A questão diante de um crime não é se são pessoas amadas, pais de família responsáveis, atenciosos donos de animais de estimação ou se choram para o seu público. Diante de um crime, um ato contra a lei, não importa quem seja, a lei deve ser cumprida assim como a sua pena. 

Ser gay, no Brasil e em grande parte do mundo, é uma escolha a ser respeitada. Em países muçulmanos é crime passível de morte. Ter relações sexuais com uma criança é pedofilia, um crime em grande parte do mundo (no Brasil é considerado hediondo, sujeito de oito a até vinte anos de prisão). Nos países muçulmanos, por outro lado, é direito do homem ter uma esposa de nove anos de idade.

Um enfermeiro que mata pacientes terminais, no Brasil, comete crime, mesmo que ele alegue intenção de aliviar o sofrimento alheio. Edson Isidoro e Virginia Soares, enfermeiros brasileiros acusados de matar centenas de pacientes em hospitais (por pena ou para liberar leitos) viveriam suas vidas tranquilamente na Suíça, Bélgica, Holanda, entre outros países, onde a eutanásia é legalmente aceita. 

Fato é que, diante de um ato ilegal, criminoso, se a justiça não é feita sem distinção de raça, cor, religião e classe social, não é justiça. É julgamento moral, étnico, religioso ou político.

O brasileiro precisa acordar para o perigo da justificação do erro ou seremos sempre sujeitos a governos que nos roubam ou médicos que matam. Porque é mais fácil ser tolerante do que lutar pela justiça e pelo direito. 

sábado, novembro 02, 2013

Direito de expressão, sim. Preconceito, não!

Qual dos dois anúncios você acha ofensivo: “Algumas pessoas são gays. Supere!” ou “Não gay! Ex-gay, pós-gay e com orgulho. Supere!”?

Obviamente, são campanhas de organizações opostas. Uma, desenvolvida pelo grupo de direito dos gays, Stonewall, e a outra, pelos movimentos cristãos, Christian Legal Centre e o Core Issues Trust, que defendem a cura para o homossexualismo. 



A primeira, parte de uma campanha desenvolvida em 2007 (com direito a camisetas, canecas, cartazes e a adesão de muitas celebridades), causou uma feroz reação do movimento cristão, que criou uma campanha similar, e, em março deste ano entrou na justiça contra o prefeito de Londres, Boris Johnson, por ele ter proibido a veiculação dos cartazes “pós-gay” nos ônibus da cidade, mas permitido que anúncios gigantes na lateral dos mesmos ônibus exibissem a campanha em favor do homossexualismo.

A decisão foi em favor de Johnson, mas questionou a permissão de uma campanha em detrimento da outra, o que levou a um novo processo. A decisão final virá somente em Dezembro.

Aproveitando o intervalo até o final do ano, o movimento Stonewall colocou novamente, este mês, a campanha nos ônibus. Cerca de mil veículos exibem, pela cidade, o slogan “Some people are gay. Get over it!”, o que levou o grupo cristão a ameaçar uma nova ação judicial.

Particularmente, vejo uma grande diferença entre uma campanha e outra. Embora use de um humor provocatório, a campanha do movimento Stonewall simplesmente nos diz o que todo mundo sabe. Existem gays no mundo e você não pode fazer nada contra isso. Em um país livre, homossexuaismo não é crime, é um direito. Já a outra, sugere que ser homossexual é algo curável, como uma doença indesejada. Como se a cura tornasse a pessoa melhor do que a outra, ainda gay.


Existe uma diferença sutil entre direito de expressão e ofensa. Eu usaria uma camiseta ou colocaria um adesivo no meu carro com o slogan do Stonewall, mas nem por muito dinheiro, usaria um minúsculo bottom que fosse da campanha dos grupos religiosos.

SOME PEOPLE ARE GAY. GET OVER IT!

sexta-feira, novembro 01, 2013

Vivendo em Londres: Refém da mãe natureza



Já testemunhei terremotos, enchentes, tempestades e, agora, furacão! De acidentes naturais, estou com a minha cota completa e passo a senha adiante. Não preciso de mais nada para consagrar a natureza como nosso maior inimigo natural. Embora eu tenha visto a tempestade São Judas da segurança do meu lar, assistir as árvores ao lado da minha janela balançar por horas, não me serviu de consolo.

O alerta sobre o mau tempo começou alguns dias antes. A pior tempestade desde o ciclone que devastou parte do Reino Unido, em 1987, atingindo também a França, cairia sobre Londres na noite de domingo, 27 de outubro. E eu nem sabia de nada. Estava animada demais com a minha semana de férias que estava começando, para “perder tempo” com notícias.

No exato domingo, estava feliz e contente na casa de alguns amigos, almoçando uma deliciosa feijoada vegana (com linguiça de soja) e batendo papo, quando percebi o céu, antes azul com poucas nuvens, se tingir de cinza chumbo. Comentei, inocentemente, que parecia que ia chover. “É, tem tempestade com ventos de até 100Kmh prevista para esta noite”, falou meu amigo, com um ar ligeiramente preocupado. Seu filho estava na Noruega e voltaria a Londres no dia seguinte. Não gostei muito da notícia, mas negligenciei o aviso em prol de mais algumas horinhas de lazer.

Chegando em casa, fui me informar sobre a tempestade e a previsão era para começar à meia noite. Pouco depois da hora marcada, nada de chuva, nada de vento. Aliviada com o fracasso meteorológico, relaxei os ombros e terminei de assistir ao meu seriado, com fones de ouvido para não acordar o resto da casa (filho é tão bom quando dorme!). Os fones não me deixaram ouvir quando a bendita coisa começou, de verdade, mas pouco antes da uma da manhã, ouvi minha filha me chamar (estranho como funcionam os sentidos de uma mãe). Ela reclamou do barulho e eu disse que era apenas a chuva, mas ela não se contentou e (abusadamente) quis dormir no meu quarto. Só então, percebi que havia algo mais lá fora além de chuva. Aliás, chuva mesmo, era pouca. O rumor era um chiado estranho e contínuo. Era o São Judas chegando, mas o meu sono foi maior que a curiosidade. Deixei o santo lá fora e fui dormir.

Quatro da manhã, desperto com um som insistente, como se um secador de cabelos gigante estivesse soprando em meu ouvido. Pulei da cama e, finalmente, abri as cortinas. O que eu vi pela imensa janela do meu quarto não era tempestade. A chuva até que não era grande coisa, mas o vento... tudo estava balançando, do lado de fora. Os galhos roçavam uns aos outros, violentamente, emitindo um som quase como um pranto, enquanto as árvores pendiam de um lado para o outro. O vaso de plantas da vizinha do andar de baixo, por sorte, estava bem preso ao suporte de madeira, mas ele girava como um relógio desgovernado, fazendo círculo incompletos, mudando a direção. Coisa mais estranha!

Corri para a sala e, pela janela, olhei a rua deserta. Pude ver as placas de trânsito balançando; as folhas das árvores entravam e saíam do meu campo de visão em segundos. Mas o barulho ainda era o que mais me impressionava. Embora as janelas tenham vidros duplos, o som do vento era perturbador. Peguei meu celular para gravar o som e, estupidamente, abri uma das janelas com a intenção de colocar o aparelho do lado de fora para gravar. Santa ingorância! O vento abriu a janela com força e, esta foi a minha sorte. A janela é muito firme, difícil mesmo de ser aberta. Apesar disso, a lateral foi empurrada pelo vento e aberta totalmente sem que eu fizesse nada. Segurei firme meu celular com medo de que o vento entrasse e o agarrasse da minha mão! Deixei-o em um lugar seguro e voltei para fechar a janela novamente. Só então, quando coloquei a mão para fora para puxar a janela, senti um pouco a força que reinava do lado de lá do vidro.

As horas se passaram comigo indo e vindo da cama para a janela e da janela para a cama. Não conseguia mais dormir e agradecia pela solidez do prédio e pelas janelas duplas! Agradeci por estar em um país onde não existe morador de rua ou criança embaixo da ponte. Abracei a minha filha, do meu lado e quase chorei de alívio.

Às seis da manhã, voltei pela décima vez para a janela e vi uma das cenas que mais me impressionou. Havia um corvo vindo na direção contrária do vento, tentando alcançar um galho de árvore a dois palmos de distância. Ele estava, praticamente, parado no céu! Suspenso, embora batesse as pesadas asas. Torci para que ele tivesse energia para mais algumas batidas e fiquei ali, alguns segundos, com a respiração suspensa também, torcendo por aquele pobre animal, até que ele se agarrou ao galho. Suspirei e, antes de sorrir para ele, o vento o arrastou. A ave rodopiou pelos ares, dando cambalhotas no céu. E não foi o único. Minutos depois, aconteceu a mesma coisa com outro corvo.

De manhã, tive que sair para um compromisso. Era uma linda manhã de céu azul, mas os rastros da ventania não foram apagados pela calmaria. Placas caídas, galhos quebrados, galões de lixo revirados no meio da rua e folhas por toda parte. Por sorte, iniciava-se a semana de férias escolares (as escolas fecham por uma semana a cada 45 dias, mais ou menos) e as crianças poderiam ficar em casa, seguras. Ainda bem, porque todos os trens (sim, todos!) foram impedidos de circular, na cidade de Londres. Sem ter como atravessar a cidade, muitos trabalhadores ficaram em casa, também, para prejuízo de muitas empresas.

Dizem que os ventos foram em torno de 114kmh, o que é pouco comparado aos 280kmh (com picos de 346kmh) registrados pelo furacão Katrina, em 2005, nos Estados Unidos e, embora não tenha sido tão devastador quanto este e nem a tempestade de 1987, no balanço final, o São Judas causou dezenas de árvores caídas, pelo menos treze mortes e voos cancelados pelo nordeste da Europa, como na Grã Bretanha, Holanda, França, Alemanha, Dinamarca e Noruega, entre outros.

No meu balanço pessoal, fica o registro de mais uma experiência nada agradável com a certeza de que somos como reféns insignificantes diante da força avassaladora desta gigante invisível chamada Natureza. E se você acha que são adjetivos demais, espere até ficar frente a frente com ela. Esperamos que não!